quarta-feira, 18 de março de 2009

O que será

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores que vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

(Chico Buarque - 1976)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Como roubar um coração!

Para se roubar um coração é preciso que seja com muita
habilidade, tem que ser vagarosamente,
disfarçadamente, não se chega com ímpeto, não se
alcança o coração de alguem com pressa. Tem que se
aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se
dele aos poucos, com cuidado. Não se pode deixar que
percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que
furta-lo, docemente. Conquistar um coração de verdade
dá trabalho, requer paciência, é como se fosse tecer
uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um
vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança. É
necessario que seja com destreza, com vontade, com
encanto, carinho e sinceridade. Para se conquistar um
coração definitivamente tem que ter garra e esperteza,
mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo
da esperteza de sentimentos, daquela que existe
guardada na alma em todos os momentos. Quando se
deseja realmente conquistar um coração, é preciso que
antes ja tenhamos conseguido conquistar o nosso, é
preciso que ele ja tenha sido explorado nos mínimos
detalhes, que ja se tenha conseguido conhecer cada
cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar
cada espaço vago...e então, quando finalmente esse
coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado
dele, vai existir uma parte de alguém que seguirá
conosco. Uma metade de alguém que será guiada por nós
e o nosso coração passará a bater por conta desse
outro coração. Eles sofrerão altos e baixos sim, mas
com certeza haverá instantes, milhares de instantes de
alegria. Baterá descompassado muitas vezes e sabe por
que?
Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.
Ate que um dia, cansado de estar dividido ao meio,
esse coração chamará a sua outra parte e alguém por
vontade própria, sem que precisemos rouba-la ou
furta-la nos entregará a metade que faltava... e é
assim que se rouba um coração, facil não? Pois é, nós
só precisaremos roubar uma metade, a outra virá na
nossa mão e ficará detectado um roubo então! E é só
por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a
fora que dizem que nunca mais conseguiram amar
alguém... é simples...é porque elas não possuem mais
coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito,
e somente com um grande amor ela terá um novo coração,
afinal de contas, corações são para serem divididos, e
com certeza esse grande amor repartirá o dele com
você...


(Luis Fernando Veríssimo)